A série de Harry Potter da HBO já tem um problema. E é o mesmo que quase matou Os Anéis de Poder.
A HBO prometeu que Harry Potter seria o evento da década no streaming. A Amazon disse o mesmo sobre Os Anéis de Poder. Deu errado.
Gente, eu preciso falar sobre a série de Harry Potter da HBO porque tem uma coisa acontecendo que eu já vi antes e não terminou bem. JB Perrette, chefão da Warner Bros. Discovery, disse que a série vai ser “o evento da década no streaming”. Dez anos de produção, sete temporadas, uma adaptação fiel de cada livro. Parece perfeito, né? Então por que estou com uma sensação horrível de déjà vu?
Porque a Amazon disse exatamente a mesma coisa sobre Os Anéis de Poder. E deu muito, muito errado.
O caso Os Anéis de Poder
Vamos relembrar, porque a memória da internet é curta. A Amazon investiu cerca de 1 bilhão de dólares em The Lord of the Rings: The Rings of Power. Posicionou a série como o maior evento do Prime Video. Campanha de marketing absurda. Expectativa nas alturas.
A primeira temporada estreou com 1,8 milhão de domicílios nos três primeiros dias nos EUA. Legal? Até que a segunda temporada veio e abriu com 902 mil domicílios nos primeiros quatro dias. Uma queda de quase 50% na estreia. No total de minutos assistidos, a primeira temporada acumulou quase 8 bilhões de minutos. A segunda? Cerca de 3 bilhões. Queda de 60%.
E tem um dado que dói mais: apenas 37% dos espectadores terminaram a primeira temporada. Ou seja, 63% das pessoas simplesmente pararam de assistir no meio e nunca mais voltaram. Numa série de 1 bilhão de dólares.
A crítica até gostou - 83% no Rotten Tomatoes. O público? 59% de aprovação na segunda temporada. A Amazon renovou para uma terceira temporada mesmo assim, mas ninguém mais fala de Os Anéis de Poder como “o evento do streaming”. Virou aquela série que existe, que alguém em algum lugar está assistindo, mas que não domina nenhuma conversa.
O que Harry Potter está repetindo
O problema da série de Harry Potter da HBO não é a qualidade. Ainda não dá para saber isso - a produção começou em julho de 2025 nos estúdios Leavesden na Inglaterra e a estreia está prevista para o início de 2027. A showrunner é Francesca Gardiner, que trabalhou em His Dark Materials e Succession. O diretor dos primeiros episódios é Mark Mylod, que fez episódios de Game of Thrones, Succession e The Last of Us. Hans Zimmer vai compor a trilha. No papel, é um time dos sonhos.
O problema é a promessa. Quando você diz “evento da década”, você cria uma expectativa que nenhuma série na história do streaming conseguiu sustentar. Game of Thrones chegou perto, mas levou cinco temporadas para virar fenômeno cultural - ninguém prometeu isso na largada. A HBO está entrando com a mesma energia da Amazon, e a Amazon provou que hype descontrolado sobre uma franquia amada pode se transformar em decepção coletiva.

E tem uma diferença que torna tudo pior: Os Anéis de Poder pelo menos contava uma história original dentro do universo de Tolkien. Harry Potter vai recontar a mesma história que todo mundo já viu nos filmes. Oito episódios para A Pedra Filosofal, quando o filme condensou tudo em duas horas e meia. O argumento é que a série vai ser mais fiel aos livros, com mais detalhes, mais cenas que foram cortadas nos filmes. Mas “mais fiel ao livro” é um argumento para fãs que já leram tudo. Para o público geral, a pergunta é mais simples: por que eu assistiria a mesma história de novo?
O elenco e as polêmicas que já começaram
A HBO escalou Dominic McLaughlin como Harry, Arabella Stanton como Hermione e Alastair Stout como Rony. John Lithgow é o Dumbledore. Janet McTeer é a McGonagall. Nick Frost é o Hagrid. São escolhas interessantes. Lithgow como Dumbledore me pega de surpresa toda vez que leio, mas consigo ver funcionando.
A escolha que está causando mais barulho é Paapa Essiedu como Severo Snape. Essiedu é um ator negro britânico, e parte do fandom reagiu mal. A HBO chegou a desativar comentários nos posts de anúncio do elenco no Facebook, TikTok e Instagram por causa de ataques racistas. Outra polêmica envolve a atriz italiana Alessia Leoni como Parvati Patil, um papel de uma personagem indiana. Fãs do sul da Ásia argumentaram que Parvati e Padma eram duas das poucas representações indianas nos livros.
Esse tipo de discussão sobre elenco não é novo. A gente viu acontecer com a série de God of War do Prime Video, quando a primeira foto de Ryan Hurst como Kratos dividiu a internet. E também aconteceu com Os Anéis de Poder, onde a escalação de atores negros como elfos e anões gerou uma onda de ataques racistas antes da estreia. É um padrão que se repete em toda grande adaptação: o fandom se divide antes de assistir um único segundo de conteúdo.
O que me preocupa de verdade
Não são as polêmicas de elenco. Essas passam quando a série estreia e as pessoas veem os atores nos papéis. O que me preocupa é a HBO estar fazendo a mesma aposta que a Amazon: gastando uma fortuna para recontar uma história que o público já conhece, prometendo que vai ser transformador, e contando com a nostalgia para carregar dez anos de produção.
A HBO tem um histórico melhor que a Amazon em séries de prestígio, sem dúvida. E o time criativo é forte. Craig Mazin está adaptando Baldur’s Gate para a HBO praticamente ao mesmo tempo, e a HBO claramente está apostando alto em adaptações de franquias. Mas aposta alta significa queda alta se não funcionar.
Eu quero que dê certo. Cresci com esses livros. Tenho a coleção inteira na estante. Mas quando o chefão de um estúdio chama sua série de “evento da década” antes de mostrar um único trailer, a história recente me ensina a abaixar a expectativa. A Amazon fez a mesma promessa, gastou 1 bilhão de dólares, e hoje Os Anéis de Poder é uma série que a maioria das pessoas esqueceu que existe.
Tomara que Harry Potter prove que eu estou errada. Mas se a HBO quer evitar o destino de Os Anéis de Poder, o primeiro passo seria parar de prometer que vai ser o evento da década e deixar a série falar por si.
Yumi Rodrigues
Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir
LEIA TAMBEM
O diretor que já foi a Chernobyl agora aponta a câmera para outro pesadelo nuclear
O novo drama da HBO que vai te fazer esquecer que o Steve Carell já foi o Michael Scott