Três irmãs enterraram um corpo nas férias e eu não consegui parar de assistir
That Night é o thriller espanhol da Netflix que transforma férias no Caribe em pesadelo familiar. E é viciante.
O atropelamento que mudou tudo no paraíso
Tudo começa com a Elena. Ela é a caçula, vivida pela Clara Galle, que a gente já amava desde Através da Minha Janela. Mas esquece aquela vibe de romance adolescente. Aqui a Elena está em frangalhos. Durante as férias da família na República Dominicana, ela acaba atropelando um homem em uma estrada de terra perto da praia. Ela entra em pânico total. E quem ela chama? As irmãs, claro.
A Cris, interpretada pela Paula Usero, é a primeira a atender o chamado. Ela é aquela irmã mais “paz e amor”, que abriu um abrigo de animais e só queria viver a vida dela tranquila. Quando ela chega no local do acidente, a Paula, vivida pela Claudia Salas (nossa eterna Rebecca de Elite!), já está lá. E o cenário é um horror completo: tem um policial morto embaixo do carro da Elena.
Agora, para e pensa comigo. Elas estão em outro país. A Elena é mãe solo de uma criança de apenas um ano. Se elas chamarem a polícia, a Elena vai presa, vai perder a guarda do filho e a vida dela acaba ali. É nesse momento que a lealdade fala mais alto que a moralidade. Elas decidem enterrar o corpo e sumir com as evidências. Eu fiquei gritando com a TV: “Meninas, isso vai dar muito ruim!”, mas ao mesmo tempo eu me perguntava se não faria o mesmo pelas minhas irmãs. É um dilema que corrói a gente por dentro enquanto assiste.
O tal do efeito Rashomon que deixa a gente maluca
Uma coisa que eu achei genial, mas que me deixou com os nervos à flor da pele, foi como eles usaram o efeito Rashomon - quando a gente vê a mesma cena por perspectivas diferentes. No começo, eu confesso que achei que ia ser cansativo. No meio do segundo episódio, eu pensei: “Tá bom, já vi isso, vamos para a frente”. Mas gente, o Jason George é esperto.
Quando chega o terceiro episódio, a série dá um giro de 180 graus. A verdade começa a mudar de forma. A gente começa a perceber que os narradores não são confiáveis. A cada novo ponto de vista, uma informação nova aparece e destrói tudo o que a gente achava que sabia sobre aquela noite. É como se a série estivesse testando os nossos limites éticos. O que antes parecia um acidente infeliz começa a ganhar camadas de segredos antigos que a família vinha escondendo há anos.
O clima muda de um suspense com pitadas de humor ácido para um drama familiar devastador. Eu me peguei chorando em algumas cenas da Elena com o filho, pensando no peso que ela estava carregando. A performance da Clara Galle é magnética aqui. Ela consegue passar uma vulnerabilidade que faz você querer proteger ela, mesmo sabendo que ela enterrou um policial na areia.

Por que a gente não consegue parar de falar dessas irmãs?
O grande trunfo de That Night é a química entre as três atrizes. Você olha para a Paula Usero, a Claudia Salas e a Clara Galle e acredita piamente que elas são irmãs que cresceram juntas e compartilham traumas de infância. Elas são muito diferentes entre si, mas o vínculo é inquebrável. É aquela coisa de “mexeu com uma, mexeu com todas”, levada ao extremo mais perigoso possível.
A Paula, personagem da Claudia Salas, é de longe a minha favorita. Ela tem um sarcasmo, uma inteligência seca e uma forma de proteger as irmãs que é quase desesperadora. Já a Cris é o nosso ponto de conexão moral. Ela começa a série como a mais otimista e vai sendo destruída aos poucos pela culpa. Ver ela tirando os “óculos cor-de-rosa” e enfrentando a realidade nua e crua é de partir o coração.
E tem a Luisa, a esposa da Paula, interpretada pela Nüll García. Ela está em uma posição muito ingrata na trama, sendo a “estranha no ninho” que começa a desconfiar que algo está muito errado. Ela representa a gente, sabe? A pessoa que está de fora olhando para aquela família e pensando: “Gente, esse povo é louco”.
A conexão brasileira e o fandom da Clara Galle
Aqui no Brasil, a gente tem uma relação muito forte com as produções espanholas. Acho que é o sangue latino, a gente gosta de um drama bem temperado! E a Clara Galle já é de casa por causa de Através da Minha Janela. O Twitter brasileiro explodiu quando as primeiras imagens de That Night saíram, e não era para menos. Ver nossa “Raquel” em um papel tão denso e sombrio é maravilhoso para a carreira dela.
Eu vi muita gente comparando com aquelas séries do Harlan Coben, tipo Fique Comigo, que também fazem muito sucesso por aqui. Mas eu acho que That Night tem algo mais. Ela não se preocupa só com a reviravolta pela reviravolta. Ela quer entender o que acontece com a cabeça de uma pessoa comum quando ela cruza a linha do crime por amor. É uma investigação sobre moralidade que me lembrou muito as conversas que a gente ouve em podcasts tipo o Mamilos, onde os dilemas humanos são colocados na mesa sem julgamentos fáceis.
Se você gosta desse tipo de série que te deixa com o coração na mão, precisa ler o que eu escrevi sobre a estreia de Scarpetta no Prime Video. É outra produção que foca muito no psicológico dos personagens e que eu também devorei em tempo recorde!
O veredito de quem não dormiu para terminar a série
Vale a pena ver That Night? Com toda a certeza do mundo. Mas vá preparada. Não é uma série para ver enquanto lava a louça ou responde e-mails. Ela exige atenção, principalmente por causa das mudanças de ponto de vista que podem te confundir se você piscar. O ritmo é acelerado, as emoções são à flor da pele e o final… bom, o final eu não vou contar, mas preparem os lenços e o calmante.
A série consegue pegar um gênero que às vezes parece cansado e dar uma renovada incrível. Ela foge do óbvio ao focar menos na investigação policial e muito mais no colapso interno das irmãs. É uma história sobre as consequências de uma única decisão tomada no calor do momento e como isso pode criar ondas de choque que mudam a vida de todo mundo ao redor para sempre.
O que você faria por quem ama? Você enterraria um corpo? A resposta pode te surpreender depois de assistir That Night.
Yumi Rodrigues
Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir
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