O diretor que já foi a Chernobyl agora aponta a câmera para outro pesadelo nuclear

O diretor de Chernobyl: The Lost Tapes volta à HBO com 90 minutos sobre os nove dias que quase apagaram o Japão do mapa.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
9 de março de 2026 6 min
Cena do documentário Fukushima: A Nuclear Nightmare mostrando a usina nuclear de Fukushima Daiichi após o desastre de 2011
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Existe um subgênero de documentário que eu respeito mais do que qualquer outro: o que pega um evento que todo mundo acha que conhece e desmonta essa certeza em tempo real. Werner Herzog faz isso. Errol Morris faz isso. E James Jones, diretor britânico ganhador do Emmy, fez isso com Chernobyl em 2022 e agora aponta a câmera para outro reator em colapso. O novo documentário da HBO sobre Fukushima que estreia dia 10 de março se chama Fukushima: A Nuclear Nightmare, e a data não é coincidência: são os 15 anos exatos do dia em que o Japão quase deixou de existir como país habitável.

Quinze anos. Parece tempo suficiente para processar qualquer tragédia. Não é.

Em 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 9.0 atingiu o nordeste do Japão, o mais forte já registrado no país. O terremoto foi devastador por si só, mas o que veio depois foi pior: o tsunami que destruiu cidades inteiras e matou mais de 20 mil pessoas. E então, enquanto o Japão ainda estava com os joelhos no chão, surgiu a ameaça que tornaria tudo ainda mais sombrio. Na usina nuclear de Fukushima Daiichi, operada pela Tokyo Electric Power Company (TEPCO), a onda gigante desativou os sistemas de resfriamento de três reatores simultaneamente. Com os reatores superaquecendo, vieram as explosões de hidrogênio. Com as explosões, veio a radiação. E com a radiação, veio a pergunta que os líderes japoneses precisaram responder em segredo: seria necessário evacuar Tóquio, a maior cidade do mundo, com 35 milhões de pessoas?

Jones constrói Fukushima: A Nuclear Nightmare com a mesma arquitetura que o tornou indispensável em Chernobyl: The Lost Tapes. Lá, em 2022, ele utilizou arquivo soviético que parecia impossível de existir para recontar o desastre de 1986 com uma imediatez perturbadora, sem narração, sem reconstituições dramáticas, apenas o peso esmagador das imagens reais. O resultado foi um dos melhores documentários da década, elogiado precisamente por não tentar competir com a minissérie ficcional de Craig Mazin de 2019, e sim por oferecer o que a ficção por definição não pode: o rosto das pessoas que realmente estavam lá.

Em seu novo filme, a abordagem é semelhante, mas o contexto é diferente. O Japão em 2011 não era a União Soviética em 1986. Não havia cobertura institucional da mesma magnitude, não havia o mesmo silêncio de Estado. Havia, no lugar disso, o caos de uma democracia tentando administrar o inimaginável enquanto câmeras de celular e câmeras de TV já registravam tudo. Jones usa esse material ao lado de depoimentos colhidos décadas depois, e a combinação funciona como aquele plano que Tarkovsky chamaria de “pressão temporal”: você sente o peso dos anos passados e a urgência do momento original ao mesmo tempo.

O documentário, co-dirigido por Megumi Inman, responsável pelo curta Atomic People, reconstrói os nove dias seguintes ao desastre em detalhe quase forense. Os depoimentos são de quem estava no epicentro: Ikuo Izawa, supervisor da sala de controle da usina, descreve o evento como “um pequeno registro do que realmente aconteceu” - uma frase que carrega mais peso do que parece, porque aquele “pequeno registro” era o registro de alguém que passou dias tentando evitar que metade do Japão se tornasse inabitável. Aparecem também engenheiros da planta como Katsuaki Hirano, o jornalista americano Martin Fackler, que entrou na usina e escreveu sobre o que viu, e o Dr. Charles A. Casto, consultor americano que assessorou as operações de resposta à crise.

Fotografado por Jean-Louis Schuller e montado por Rupert Houseman, com trilha sonora de Uno Helmersson, o filme tem 90 minutos e não desperdiça nenhum segundo. A música de Helmersson já apareceu em produções escandinavas de terror cotidiano, e faz sentido aqui: Fukushima: A Nuclear Nightmare não é um filme sobre monstros ou vilões, é um filme sobre sistemas que falham e sobre seres humanos tentando consertar o que parece irrecuperável com ferramentas inadequadas, em condições impossíveis.

Um detalhe que distingue este documentário de outros sobre o acidente é a decisão de contextualizar a tragédia dentro de um arco histórico maior. Jones começa antes de 2011, recuando até 1945, a bomba atômica em Hiroshima, e depois até 1955, quando os Estados Unidos patrocinaram uma exposição chamada “Atoms for Peace” no Japão para promover o uso civil da energia nuclear. Há extratos de filmes de propaganda japoneses que garantiam à população que as usinas nucleares eram seguras. Há reportagens de 1967 sobre a construção de Fukushima pela TEPCO. É um enquadramento que transforma o desastre de 2011 em algo mais do que uma tragédia natural, em uma tragédia construída ao longo de décadas de escolhas políticas e institucionais.

Isso é o que separa o documentário de um simples registro jornalístico e o aproxima do cinema de não-ficção que realmente interessa. O crítico Mansel Stimpson, na Film Review Daily, observou que não é por acaso que o filme chega num momento em que a dependência global de energia nuclear volta a crescer, inclusive com planos para reativação nuclear no próprio Japão. A sombra de Fukushima é, quinze anos depois, ainda muito potente.

Para o espectador brasileiro que acompanha a HBO Max, Fukushima: A Nuclear Nightmare entra no catálogo num momento em que o streaming finalmente está tratando o documentário como categoria nobre e não como conteúdo de preenchimento. A HBO que nos deu Rooster recentemente também é a HBO que financia James Jones para passar anos reconstruindo desastres nucleares com rigor de arquivo. As duas coisas coexistem no mesmo catálogo, e isso diz algo sobre a amplitude do que essa plataforma ainda consegue oferecer.

O filme estreia dia 10 de março nos Estados Unidos, transmitido das 21h às 22h40, e já disponível no HBO Max. Produzido pela Blast Films em associação com a Dogwoof, é uma coprodução britânico-americana que já foi lançada no Reino Unido em fevereiro pela distribuidora Dogwoof. No Brasil, o acesso via Max deve seguir o mesmo calendário da estreia americana.

Há documentários que chegam nos momentos certos. Não porque o timing foi calculado pelo marketing, mas porque as questões que eles levantam nunca foram resolvidas. Fukushima: A Nuclear Nightmare é sobre nove dias de 2011, mas é também sobre agora, sobre a pergunta que continua sem resposta satisfatória enquanto o mundo debate energia e clima: o que exatamente estamos dispostos a arriscar?

Felipe Ouder
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