Homem é baleado no estacionamento de um supermercado depois de discutir por causa de uma máquina de cartas de Pokemon

Pokemon TCG rendeu 3.261% em 20 anos, mais que o S&P 500. Agora as cartas viraram motivo de tiro em estacionamento de supermercado nos EUA.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
13 de abril de 2026 5 min
Ilustração sobre o tiroteio ligado a cartas de Pokemon em estacionamento de supermercado
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Sábado à noite, 19h, estacionamento do Kroger na Twin Aire Drive, em Indianápolis. Um homem entra em uma discussão com outro do lado de fora do supermercado. O motivo: alguém passou na frente na fila de uma máquina de cartas de Pokemon TCG. Minutos depois, um dos envolvidos está sangrando no asfalto, baleado. Sobreviveu, operou, está em estado “grave mas estável”.

O capitão da polícia de Indianápolis, Don Weilhamer, resumiu o absurdo: “acho totalmente ridículo. Disseram que foi uma discussão. Não foi tipo alguém tentando roubar do outro.”

Ridículo é uma palavra educada. A palavra correta é inevitável.

Por que alguém atira em outra pessoa por carta de Pokemon

Os números explicam praticamente tudo. Nos últimos 20 anos, o mercado de cartas de Pokemon rendeu 3.261%. No mesmo período, o S&P 500 rendeu 483%. No último ano, só a média das cartas subiu quase 46%, batendo até a Nvidia. Em janeiro de 2026, US$ 450 milhões foram gastos em Pokemon TCG em um único mês. A Pikachu sozinha tem um valor de mercado global estimado em US$ 650 milhões.

Em fevereiro, Logan Paul vendeu uma carta Pikachu Illustrator por US$ 16,49 milhões no leilão da Goldin. Ele tinha comprado a mesma carta em 2021 por US$ 5,27 milhões. Triplicou o investimento em quatro anos. Virou recorde Guinness de carta mais cara já vendida.

Com esses números, uma carta sorteada de um pacote de US$ 5 pode facilmente valer milhares. Uma máquina automática de cartas oficial da The Pokemon Company que dispensa pacotes em intervalos programados, toda vez que reabastece, vira caça ao tesouro. Cambistas ficam horas esperando pra comprar em massa e revender. Quando alguém fura a fila, não é só uma questão de etiqueta. É lucro sendo roubado em tempo real.

O tiroteio não é o primeiro caso

O incidente em Indianápolis não é isolado. A CNN publicou na semana passada uma matéria chamando o fenômeno de “onda internacional de crimes”.

Em março, Anthony Garcia, 23, foi preso em Chicago depois de usar o Facebook Marketplace pra atrair vendedores de cartas Pokemon pra um prédio no bairro de Gage Park. Lá, ele assaltava os vendedores sob a mira de arma. Cinco assaltos documentados em menos de duas semanas. Vítimas de 20 anos achando que iam fazer uma venda.

Na cidade de Graham, Washington, dois ladrões roubaram US$ 10 mil em cartas de uma loja em menos de dois minutos. Na Colúmbia Britânica, outra loja perdeu US$ 25 mil. Em Las Vegas, Nova York, Vancouver e Nottingham, os roubos somados passam de US$ 500 mil este ano.

O caso mais bizarro é o de Keith Wallis, preso na Flórida por 75 roubos de cartas Pokemon de lojas Target. O método: ele escondia as cartas dentro de pacotes de tempero de taco, pagava só o tempero e revendia as cartas no eBay. Pode pegar até 90 anos de cadeia por furto, recebimento de produto roubado e lavagem de dinheiro.

Nick Jarman, CEO da Certified Trading Card Association, resumiu o apelo pros criminosos: “os ladrões pegam um punhado de cartas que podem representar milhares ou dezenas de milhares de dólares e literalmente cabem no bolso.” Pior: cartas não têm número de série. Rastrear é praticamente impossível.

No Brasil, o mercado cresce 130% em um ano

O Brasil não está de fora disso. As vendas de cartas usadas de Pokemon na OLX cresceram 130% entre janeiro e setembro de 2025 comparado ao mesmo período de 2024, segundo o Tecmundo. Cartas representam 92% de todas as transações de jogos colecionáveis no site. Pokemon domina 91% das buscas e 83% dos anúncios.

O mercado secundário brasileiro de cartas Pokemon rendeu mais de 3.800% desde 2004. No mesmo período, o Ibovespa rendeu 1.000%, o S&P 500 rendeu 480%, o ouro rendeu 400%. A coleção Espada & Escudo: Céus em Evolução, que custava entre R$ 200 e R$ 250 em 2021, hoje passa de R$ 45 mil. Cartas individuais podem ultrapassar R$ 200 mil.

O problema brasileiro tem um ingrediente extra: falsificação. Estimativas sugerem que mais de 20% das cartas vendidas em mercados informais como Mercado Livre mostram sinais de falsificação.

A The Pokemon Company dá a mesma resposta desde 2021

A raiz estrutural é a escassez deliberada. A The Pokemon Company controla a produção e libera as cartas em lotes escalonados. Quando o conjunto Prismatic Evolutions chegou em 2025, foi caos imediato: bots de cambistas esgotando estoques, briga em fila, vídeo de duas pessoas quase se estrangulando em uma máquina ACME vazou em março deste ano e teve 3,2 milhões de visualizações no TikTok.

A resposta oficial da empresa sempre é a mesma frase: “estamos trabalhando ativamente para imprimir mais produtos impactados do Pokemon TCG o mais rápido possível e com capacidade máxima”. O Nintendo Life notou que a empresa solta esse comunicado praticamente idêntico desde 2021. Quatro anos depois, a escassez continua.

A Millennium Print Group, gráfica principal das cartas, fechou o maior contrato de aluguel industrial dos EUA em 2025: 1,27 milhão de metros quadrados em Morrisville, Carolina do Norte. Quando estiver operacional, vai dobrar a capacidade de impressão. Previsão: entre o final de 2027 e 2028.

O que muda agora

Nada. Os preços continuam subindo porque a oferta é controlada e a demanda está inflada por especuladores. A máquina automática de cartas de Indianápolis provavelmente já voltou a ser reabastecida. Alguém novo está na frente da fila. Alguém atrás está irritado.

O colecionismo sempre foi apaixonado. Sempre gerou brigas, ciúme, rivalidade. O que mudou é que agora um pacote de US$ 5 pode conter uma carta de mil dólares. Isso não é hobby. É mercado financeiro vestido de infância. E mercado financeiro, quando a oferta é artificialmente escassa e a demanda é desesperada, sempre acaba gerando violência. A única diferença é que aqui a arma é uma Pikachu, e a outra é uma pistola.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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