Apostaram meio bilhão de dólares no bombardeio ao Irã. A plataforma diz que fez um favor pro mundo.
A Polymarket movimentou US$529 milhões em apostas sobre o ataque ao Irã. Seis contas fantasmas lucraram US$1,2 milhão. A empresa chamou de serviço público.
A Polymarket - plataforma de apostas em blockchain que virou celebridade ao prever a vitória de Trump em 2024 - movimentou US$529 milhões em apostas sobre o bombardeio americano ao Irã. Meio bilhão de dólares. Em contratos que pagavam mais quanto mais certeza você tinha de que bombas iam cair em cima de gente.
Quando confrontada, a empresa respondeu que mercados de previsão são um “serviço público inestimável” em tempos de crise.
Eu preciso de um minuto.
Como funciona
Pra quem não acompanha: a Polymarket é uma plataforma onde você aposta dinheiro real em eventos do mundo real usando criptomoedas. “O Bitcoin vai bater US$100 mil?” “O Trump vai vencer a eleição?” São perguntas transformadas em contratos. Você compra ações “sim” ou “não” a um preço que reflete a probabilidade estimada pela multidão. Se acertar, cada ação vale US$1. Se errar, vale zero.
A plataforma ganhou credibilidade em 2024 quando seus mercados apontaram a vitória de Trump dias antes da eleição, enquanto pesquisas tradicionais mostravam empate técnico. Desde então, virou a queridinha de quem defende que “o dinheiro fala mais verdade que especialistas”.
O problema começa quando o dinheiro decide falar sobre bombardeios.
Meio bilhão em bombas
Desde dezembro, contratos sobre ataques americanos ao Irã acumularam US$529 milhões em volume de negociação na plataforma, segundo a TechCrunch. O contrato específico “EUA atacam o Irã até 28 de fevereiro?” sozinho movimentou quase US$90 milhões. Outro contrato popular perguntava se o aiatolá Khamenei deixaria o poder até 31 de março - US$45 milhões apostados na queda de um líder estrangeiro como quem preenche bolão da Copa.
Na madrugada de 28 de fevereiro, quando os ataques começaram, quem tinha comprado ações “sim” embolsou o prêmio. Quem apostou “não” perdeu tudo.
A Polymarket cobrou sua taxa sobre cada transação. Todo mundo feliz.
Menos quem estava embaixo das bombas.

A defesa
A empresa publicou uma nota editorial nas próprias páginas de apostas. O texto diz que “a promessa dos mercados de previsão é aproveitar a sabedoria coletiva para criar previsões precisas e imparciais sobre os eventos mais importantes da sociedade”. A Polymarket afirmou que, após conversar com “pessoas diretamente afetadas pelos ataques”, concluiu que seus mercados “podiam dar as respostas que elas precisavam de formas que a TV e o X não conseguiam”.
Traduzindo pra linguagem de gente: enquanto você assiste bombardeios ao vivo no noticiário, alguém está lucrando com cada explosão. E a empresa que facilita esse lucro diz que, na verdade, está oferecendo informação pública de qualidade.
O argumento tem um problema técnico que eu faço questão de apontar. Apostadores não são analistas imparciais. Eles têm dinheiro em jogo. Literalmente. Se eu aposto US$10 mil que vai ter bombardeio, meu incentivo psicológico é acreditar que vai ter bombardeio, não avaliar friamente a probabilidade.
A própria Polymarket provou esse ponto quando seus usuários previram com confiança que Pierre Poilievre seria eleito primeiro-ministro do Canadá em 2025. Não foi.
“Sabedoria coletiva” funciona quando a multidão não tem incentivo financeiro pra distorcer a realidade. Quando tem, vira torcida organizada com carteira aberta.
As seis contas fantasmas
Agora a parte que transforma questionável em potencialmente criminoso.
A Bubblemaps, empresa de análise de blockchain, identificou seis contas que compraram ações “sim” no contrato de 28 de fevereiro horas antes dos ataques. Todas criadas em fevereiro de 2026. Todas financiadas nas 24 horas anteriores ao bombardeio. Todas apostaram exclusivamente no contrato de 28 de fevereiro, ignorando outros prazos disponíveis.
Uma delas comprou mais de 560 mil ações “sim” a cerca de 10,8 centavos cada. Quando o contrato fechou, cada ação valeu US$1. Lucro estimado: US$560 mil. Em uma única aposta. De uma conta criada dias antes.
Outra comprou 150 mil ações a 20 centavos. Retorno na casa das centenas de milhares de dólares.
No total, as seis contas embolsaram cerca de US$1,2 milhão. A Bubblemaps publicou um mapa mostrando que as carteiras estavam agrupadas e financiadas por caminhos similares. Nenhuma tinha transações fora dessas apostas. Foram criadas exclusivamente pra isso.
A CFTC - órgão regulador americano para mercados de derivativos - emitiu um comunicado alertando que o uso de informação privilegiada em contratos de eventos pode violar a legislação dos Estados Unidos, e que as plataformas são “a primeira linha de defesa” contra esse tipo de manipulação.
A Polymarket não comentou sobre as contas.
O retrato
Existe uma discussão legítima sobre a utilidade de mercados de previsão. Em contextos controlados, com regras claras e supervisão regulatória, eles podem funcionar como termômetros de probabilidade. Pesquisadores usam modelos parecidos há décadas.
O que a Polymarket faz é diferente. É uma casa de apostas em blockchain que opera com anonimato, sem regulamentação efetiva, e que lucra proporcionalmente ao volume - inclusive quando o volume envolve morte. A plataforma não exige verificação de identidade nos mesmos moldes de uma corretora convencional. Qualquer pessoa com uma carteira de criptomoeda pode criar uma conta, depositar fundos e começar a apostar em guerras no mesmo dia.
E a operação acontece num limbo regulatório conveniente. A CFTC já multou a Polymarket em US$1,4 milhão em 2022 por operar mercados de eventos sem autorização, mas a plataforma se reestruturou e continuou. A Kalshi, sua principal concorrente, ao menos opera sob supervisão da CFTC nos Estados Unidos. A Polymarket preferiu o caminho da cripto: mover-se rápido e lidar com as consequências depois.
No Brasil, a explosão das apostas esportivas já movimenta três vezes mais dinheiro que a indústria de games. O modelo da Polymarket é o próximo passo natural dessa lógica: se dá pra apostar no resultado de um jogo de futebol, por que não no resultado de um bombardeio?
A resposta deveria ser óbvia. Mas quando tem meio bilhão de dólares na mesa, o óbvio vira “serviço público inestimável”.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
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