A Casa Branca postou "wasted" do GTA sobre bombardeios reais no Irã. E não foi o pior vídeo da semana.

A Casa Branca publicou vídeos misturando clipes de GTA, Call of Duty e Mortal Kombat com bombardeios reais no Irã. Ben Stiller exigiu remoção de Tropic Thunder.

Carla Mendes
Carla Mendes Cobrindo esports desde 2018
7 de março de 2026 5 min
Screenshot do post da Casa Branca no X mostrando montagem com clipes de jogos e bombardeios reais no Irã
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A conta oficial da Casa Branca no X publicou nos últimos dias uma série de vídeos que misturam cenas reais de bombardeios americanos no Irã com clipes de GTA San Andreas, Call of Duty e Mortal Kombat. Num deles, a cada alvo atingido, a pontuação sobe na tela, exatamente como num jogo de tiro. Em outro, a palavra “wasted” aparece sobre imagens de ataques reais, no estilo clássico do GTA quando o personagem morre.

Três dias, três montagens

O primeiro vídeo, postado na quarta-feira (4), abre com uma cena de Call of Duty: Modern Warfare III - a killstreak MGB, que é a recompensa máxima do jogo, aquela bomba final que só desbloqueia depois de 30 abates seguidos sem morrer. Logo depois entram imagens reais de ataques com mísseis contra alvos iranianos, com a música “Bonfire” de Childish Gambino ao fundo e um marcador +100 aparecendo na tela a cada novo alvo atingido, como a pontuação por abate do Call of Duty. A legenda: “Courtesy of the Red, White & Blue.”

O segundo, de quinta-feira (5), é uma colagem de trechos de Gladiador, Top Gun: Maverick, Better Call Saul, Halo 2, John Wick, Superman, Breaking Bad, Transformers, Deadpool, Star Wars: Os Últimos Jedi, Yu-Gi-Oh! e Homem de Ferro dizendo “acorda, o papai chegou”. Tudo isso intercalado com bombardeios reais. No final, o logo da Casa Branca entra na tela com o áudio “flawless victory” direto do Mortal Kombat. A legenda: “JUSTICE THE AMERICAN WAY.”

O terceiro, de sexta-feira (6), abre com o meme mais famoso de GTA San Andreas - CJ descendo do carro e soltando “ah shit, here we go again”. A palavra “wasted” aparece sobre quatro ataques americanos, incluindo o afundamento do navio de guerra iraniano IRIS Dena. Um quarto vídeo ainda usa Bob Esponja perguntando “quer ver eu fazer de novo?” antes de mais imagens de bombardeios.

Ben Stiller exige remoção

A Casa Branca também usou um trecho de Tropic Thunder numa das montagens - especificamente a cena do personagem de Tom Cruise dançando. Ben Stiller respondeu no X: “Ei, Casa Branca, por favor removam o clipe de Tropic Thunder. Nunca demos permissão e não temos interesse em fazer parte da máquina de propaganda de vocês. Guerra não é filme.”

A Pokémon Company condenou publicamente o uso de sua propriedade intelectual pelo governo. Marcus Lehto, cocriador de Halo, chamou a prática de “absolutamente abominável”. São as duas únicas empresas e figuras do mundo de games que se manifestaram publicamente até agora.

A senadora Tammy Duckworth, veterana da Guerra do Iraque que perdeu as duas pernas em combate, não mediu palavras: “Guerra não é videogame. Seis americanos estão mortos e milhares estão em risco desnecessário por causa da sua guerra ilegal e injustificada.”

Jon Favreau, do Pod Save America, foi mais direto: “Centenas de pessoas morreram. Meninas morreram. Seis americanos morreram. Outros estão arriscando suas vidas. Milhões no Oriente Médio estão apavorados. Não é um videogame. Não é um meme. É guerra de verdade.”

A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, respondeu que a administração vai continuar “mostrando o sucesso incrível das Forças Armadas dos Estados Unidos”. Sem pedido de desculpas.

Vídeo da Casa Branca no X misturando imagens de Call of Duty com bombardeios reais no Irã

Quem ficou em silêncio

Activision, dona de Call of Duty, não respondeu. Xbox, que é dona da Activision desde a aquisição por 69 bilhões de dólares em 2023, também ficou quieta. Rockstar, dona de GTA? Nada. A Kotaku tentou contato com as três empresas. Sem resposta.

A Pokémon Company foi a exceção - condenou o uso publicamente. Mas as donas das franquias que aparecem nos vídeos mais agressivos, com contagem de pontos por morte e “wasted” sobre ataques reais, simplesmente não disseram nada. Não pediram remoção. Não emitiram nota. O contraste com a reação de Ben Stiller, que não tinha nenhuma obrigação de se manifestar além da sua própria consciência, é gritante.

Os números por trás do espetáculo

Enquanto esses vídeos acumulavam dezenas de milhões de visualizações, o navio iraniano IRIS Dena, mostrado com a palavra “wasted” na tela, afundou com aproximadamente 180 tripulantes. Autoridades do Sri Lanka recuperaram 87 corpos e 32 sobreviventes. Em 28 de fevereiro, um ataque com mísseis atingiu a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh no Irã, matando crianças.

No dia seguinte à publicação dos vídeos de sexta, Trump tinha agenda marcada para a cerimônia de transferência dignificada dos restos mortais dos seis militares americanos mortos no conflito.

O jogo que ninguém pediu pra jogar

A Casa Branca não está tratando a guerra como videogame por acidente. Os vídeos são editados profissionalmente, com timing de corte, trilha escolhida, referências culturais que falam direto com centenas de milhões de pessoas. Quem fez isso sabe exatamente o que “wasted”, “+100” e “flawless victory” significam para a geração que cresceu com esses jogos. Não é a primeira vez que games e política se cruzam - a internet já transformou Trump em personagem de Resident Evil com direito a Green Herb - mas a diferença é que agora é o próprio governo usando clipes de jogos sobre bombardeios reais com contagem de pontos por morte.

A indústria de games já foi arrastada para propaganda política antes. Mas nunca com imagens de guerra real, pontuação por morte e um navio afundando com 180 pessoas dentro enquanto a tela pisca “wasted”. E a maioria das empresas donas dos jogos escolheu o silêncio.

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